Um Ensinamento Para Se Ter Na Memória

        Não sei se sabem, mas um dos filósofos mais famosos de todos os tempos, Sócrates, não deixou nenhum escrito, tudo o que se sabe sobre ele e sua vida e seu pensamento é proveniente de depoimentos de discípulos ou de adversários e do confronto dessas diferentes visões é que podemos tentar extrair a verdadeira face de Sócrates.
Recentemente lendo “Ditos e feitos memoráveis de Sócrates”, por Xenofonte, seu discípulo, no capítulo 7, livro II, achei muito interessante como Sócrates via as coisas com clareza e usava sua sagacidade para ajudar os amigos que se encontravam em apuros.
        Xenofonte nos conta que Sócrates, numa conversa com Aristarco, percebeu que este carregava um fardo e convidou-o a reparti-lo com os amigos para que pudessem ajudá-lo, algo mais ou menos assim:
Aristarco estava desesperado, a cidade estava um caos e não havia meios de ganhar dinheiro e por conta disso suas irmãs, sobrinhas e primas, abandonadas, refugiaram-se em sua casa. Então, eram 14 pessoas livres – sim, porque naquela época havia escravos – a viver na miséria e Aristarco dizia que era impossível sustentar tanta gente.
Sócrates, então, questionou Aristarco sobre como era possível que Ceramão, também com um mundo de gente para manter, tinha o bastante para ele e para todos os outros e ainda conseguia enriquecer ao passo que Aristarco, tendo também muitas pessoas que sustentar, temia que morressem todos de fome.
E Aristarco explicou que o Ceramão mantinha escravos e que ele tinha pessoas livres.
Então, Sócrates, mais uma vez perguntou sobre quais pessoas ele achava mais dignas de estima, se as livres que ele tinha em casa ou as escravas de Ceramão. E  Aristarco respondeu as livres é claro!
Sócrates achou um absurdo constatar que Ceramão vivia na abundância com seus escravos enquanto ele, Aristarco, com pessoas muito mais dignas de estima estava na miséria.
Então, Aristarco argumentou que Ceramão alimentava artesãos e ele pessoas de educação liberal.
E mais uma vez Sócrates, com toda a humildade, questionou se artesãos não eram pessoas que aprenderam a fazer alguma coisa útil, no que Aristarco concordou plenamente.
Então, Sócrates foi citando exemplos de pessoas que faziam coisas úteis e não só sustentavam a si próprias como a um bando de gente e ainda dispunham de sobra e perguntou: “Ô Aristarco, as pessoas que tem em casa não sabem fazer nada útil?”
E Aristarco disse:  “Claro que sim!”
Então, Sócrates, com toda sua sabedoria, perguntou se ele achava que só por serem livres e da família, as pessoas que ele tinha em casa nada deviam fazer senão comer e dormir, e mais, se ele achava que esse ócio e essa preguiça iria torná-las melhores.
E continua Sócrates: “Se as suas parentas aprenderam mesmo coisas úteis à vida, por que não se ocupam delas para que possam tirar algum proveito? Afinal, quem é mais sábio aquele que se entrega à preguiça e à ociosidade ou aquele que se ocupa das coisas úteis? Quem é mais justo, aquele que trabalha ou aquele que não faz nada e sonha com os meios de subsistência?”
E mais ainda, Sócrates fez uma observação muito interessante e disse: “Ô Aristarco, não há amor nessa família, pois você a vê como um peso e elas vestem a carapuça e pensam que nada podem fazer para reverter esse quadro. Por que não propõe que todos se dediquem às coisas úteis, ao trabalho, seja qual for, para tornar suas vidas mais prazerosas?”
E pensando um pouco, Aristarco reconheceu que o conselho de Sócrates era perfeito e ele, que se via tão desesperado e que nem pensava em pedir dinheiro emprestado, porque nem teria como pagar, começou a ver uma luz no fim do túnel e tendo a certeza de que a união da família em prol do trabalho lhes trariam renda, levantou-se dinheiro, comprou-se lã e todos se dedicaram a prática das coisas úteis, ou seja, ao trabalho e assim reverteram a situação caótica em que se encontravam.
Não parece não, mas esta narrativa de Xenofonte pode ser muito útil para nós nos dias de hoje, em que famílias inteiras se encontram em situação desesperadora sem verem saída, muitas vezes, por estarem presas a sua ocupação e posição anterior e considerarem sem valor as atividades menores, porém muito úteis e também por não considerarem o trabalho em família possível, porque sabemos muito bem que nos venderam a ideia de que não se deve misturar negócio com família, como se a família fosse necessariamente sua inimiga, mas como assim se amizade significa a união com aqueles que tem os mesmos valores e querem as mesmas coisas e que se ajudam mutuamente para alcançar um objetivo? Ora, as pessoas da família não são desde o princípio unidas? Será mesmo que não desejam a mesma coisa? Será que não desejam andar para frente e ver todos bem?
Fica muito difícil prosperar quando no meio de inimigos.
Por pior que possa parecer a situação em que se encontra, busque união e apoio da família, busque encorajarem-se mutuamente para que tenham forças para fazer o que é preciso para superar o caos.
E foi justamente isso que fizeram Aristarco e sua família, cada um fazendo o que lhe cabia para conseguir sair da miséria.
Porém, ser humano é ser humano e, certa vez, Aristarco comentou com Sócrates que suas parentas o criticavam pelo fato dele ser o único da casa a comer sem fazer nada e, mais uma vez, Sócrates, em sua infinita sabedoria, sugeriu que ele lhes contasse a fábula do cão, que diz que, na época em que os animais falavam, uma ovelha perguntou ao dono algo mais ou menos assim: “Estranho que  nós que fornecemos lã, cordeiros, queijos, não recebemos nada de ti além de pasto, enquanto o teu cão que não te dá nada, recebe de ti o teu próprio alimento.”
E o cão, que ouvia, disse: “Ora, ele tem razão de dividir comigo seu alimento, pois se não fosse eu a guardá-las e protegê-las de lobos, de serem roubadas, atacadas, teriam tanto medo que nem seriam capazes de pastar.”
E foi aí que as ovelhas finalmente entenderam que era merecido o privilégio do cão.
Fica a dica, busque união e apoio mútuo para fazer o que for preciso para ser feliz, porque felicidade é aqui e agora.

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